Entre sem bater. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Sei...

Algumas pessoas que conheciam o quão minúsculos e defeituosos eram, acabaram se tornando cientistas e filósofos reconhecidos e importantes para a história do homem na Terra, tornando-se então um pouco menos minúsculo, e assim, conseguindo viver, ao  menos minimamente, mais equilibrado com o seu eu. Mas o que acontece com aqueles que são e sabem que são pequenos e inúteis por toda a vida? Não me pergunto por mim, não sei dizer se realmente tenho consciência tão precisa sobre essa escala, mas apostaria que muitas pessoas passam por toda a vida assim, e que muitas outras nem suportam vivê-las por muito tempo dessa forma. Deve ser muito ruim.

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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Meu espectro

Ouço um senhor com nome de governador.
Lápis e rabiscos, minha mente aos cochichos,
Com um coração cheio de saudade.

De repente, fiz viadutos e torres,
Sinto finalmente, sem dores.
Ela só me traz alegria.

Queria saber rimar pra mostrar o que eu faço por você, queria saber cantar pra convencer você. De qualquer forma dou todo meu coração, não é grande coisa, verdade, mas é o que tenho pra lhe oferecer. Desculpa por não ser poeta, mas se acostume, pra esse rosto, com sobrancelhas grossas, nariz moderadamente grande e seu sorriso, você olhará por infinitos anos. Na aula de Limite não consigo pensar em outra coisa.

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domingo, 22 de maio de 2011

Um qualquer menino.

  A estrada segue seu caminho com uma certeza que só ela pode possuir, ser errante é fácil, por cima de solo tão preciso. As gaivotas continuarão a sua espera mas se quiserem podem esperar lá no final da estrada, até porque só você enxerga as alternativas, erradas, de fato, mas irão ao menos lhe salvar delas. Das gaivotas.

  Um menino atravessa a rua para comprar um doce, um pipa desvia seu olhar e o faz parar, rua calma, pega o pipa e termina o que ia fazer, duas balas por dez centavos. Aproveita para comprar uma rabiola e um carretel de linha. Como apenas alguns mágicos da idade dele conseguem fazer, recoloca rapidamente a pipa no lugar de onde nunca deveria ter saído, dois minutos depois perde seu achado e volta para casa chupando as suas balas, já sabendo da bronca que ganharia por ter gasto mais dinheiro do que deveria. Por sorte, antes de sua mãe quem aparece é o pai, quando a dona pergunta do troco, o senhor dá um jeito de despistá-la. O menino volta a seu quarto para olhar pela janela, seu pipa já está novamente nos céus, junto com tantos outros, junto com o sol, as nuvens, o avião, os balões, as estrelas, o rinoceronte, o leão e o macaco... Jurava ter visto também um urso.
  
  O sol forte incomoda os seus olhos claros, mas esperava seus amigos, de preferência que estivessem na companhia de uma bola de futebol. Pois então eles passaram.

  Apesar da dor de cabeça que sempre o acompanhava quando ia brincar acompanhado de um inferno no céu, não tinha outra alternativa a não ser correr por aquela quadra atrás de uma bola. Não tinha a habilidade de alguns de seus amigos, bem verdade, mas se esforçava bastante, ria bastante. Passado algumas horas e feito alguns cinco gols, sua mãe aparecera. De volta em casa, após o banho, divertia-se com a miniatura de um avião, voava pra todos os lados com ele, morria de medo de entrar em um avião de verdade. Quando viu, já era hora de beijar seus pais para poder dormir.

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sábado, 2 de abril de 2011

InAcalanto

  Acabei de chegar no meu apartamento, pego meu chaveiro com as duas chaves. A prateada, do portão do prédio, a dourada, da porta. Será uma ou duas voltas hoje? Coloco a chave, termino a primeira volta. Tento primeiro abrir ou tento antes dar mais uma volta? Devem ser duas, então arriscarei. Errei, era apenas uma. Dorme minha pequena, não vale a pena despertar.   Sento no sofá e espero. Passarinhos, como o canto deles é lírico, principalmente ao amanhecer, mesmo na embriaguez é impossível não perceber, apesar dele, o canto, ficar mais triste. Vou para a cadeira do meu computador, ligo a máquina, apoio meus punhos no teclado, penso em escrever algo. Não tem o que escrever, curvo minha cabeça e permaneço ali. Até quando eu quiser, até eu conseguir voltar.

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quarta-feira, 9 de março de 2011

Do céu.

  Uma tarde qualquer. Ruas, muitas ruas, muito cinza, pouco movimento, dois carros para um lado, três para o outro. Algumas pessoas, todos os tipos, muitos jovens, alguns poucos e bem cuidados bancos, até aparecia algum verde por ali. Eu estava sentado em um desses bancos, sentindo o tempo passar. Como se os anjos viessem passear por aqui, de repente desce uma nuvem, nuvem branca, de cima dela não um anjo, mas uma garota. Tomo um susto, ainda mais ao perceber que só eu estranho aquilo, na calçada uma nuvem com uma garota, linda por sinal, em cima dela. Ela está ali, imóvel com um olhar curioso, inocente mas ao mesmo tempo malicioso, sapeca. Começa a andar e apesar de eu não ver mais a nuvem parece que ela continua numa, ela e sua sombra flutuam como se o Universo fosse o local mais familiar para o seu passeio a tarde. Linda daquele jeito, vindo em minha direção. Em alguns pulos seus cabelos pareciam negros, em outros o sol refletia de forma angelical raios castanho claro. Seu rosto vinha em perfeição com o diminutivo. Narizinho, bochecinha, olhinhos, boquinha. O contorno dessa boca com certeza foi desenhado, era o único jeito de sair tão delicada e chamativa. Continuava em minha direção, abriu um sorriso. Paralisei em seu sorriso, se antes era ela na nuvem, agora era minha vez, aquilo não poderia ser verdade, o cinza foi embora, o barulho dos carros e da cidade também. Um sorriso lindo, lindo, lindo. Naturalmente alegre, enchendo-me dela.

  Quando voltei ao meu banco, ela já estava ao meu lado. Alta, naquele momento só via sua mão, delicada, que estava na altura do meu rosto já que seu corpo, perfeito, estava um pouco a direita, ia se ajeitando para sentar ao meu lado no banco. Então sentou.

 - Oi - eu disse, abobalhado, esperando alguma explicação.
 - Olá - continuou com seu enorme sorriso - Vim ficar com você.
 - Comigo?
 - É, agora chega de perguntas.

  E ficamos aqui, nas nuvens.

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